INTRODUÇÃO AO LIVRO DE DETERONÔMIO


    O quinto e último livro do Pentateuco chama-se Deuteronômio. A palavra Deuteronômio significa “segunda lei”, e seu título foi retirado de Dt 17,18, onde encontramos a ordem de que o rei deve escrever uma “cópia da lei”.


 Como os demais livros do Pentateuco, o livro Deuteronômio também foi atribuído a Moisés, embora não se conheça o seu verdadeiro autor humano, sendo um relator do período sacerdotal. Ele parece ser uma continuidade do livro dos Números, uma vez que em Nm 36,13 encontramos as leis dadas “nas estepes de Moab”. Este livro não fala tanto de leis separadas, mas da Lei, no sentido da Torá de Moisés.

Interessante observar que este livro tem uma estrutura toda particular: é um código de leis civis e religiosas (Dt 12,1-26,15) enquadrado num grande e robusto discurso de Moisés (Dt 5-11 e 26,16-26,68). Antes disso, também temos um primeiro discurso de Moisés (Dt 1-4), e um terceiro discurso (Dt 29-30), bem como toda a narrativa da vida final de Moisés, que é sucedido por Josué, aquele que conduz o povo na entrada e tomada de posse da Terra prometida, que Deus prometera das aos descendentes de Abraão. Moisés dá a sua bênção a Josué e morre fora da Terra Prometida (Dt 31-14).

É impressionante como certos livros da Bíblia abrangem tanto tempo da história. Alguns alcançam centenas ou até milhares de anos, enquanto outros tratam de apenas semanas ou meses. E o livro do Deuteronômio trata de um período de aproximadamente um mês, no final da vida de Moisés, o líder escolhido por Deus para libertar Israel da escravidão e revelar ao povo sua Lei. Antes de morrer, Moisés fez uma última série de discursos nas planícies de Moab, do lado oriental do rio Jordão. No final do livro é relatada a morte deste homem, abrindo espaço para Josué, seu sucessor, conduzir o povo na conquista da terra prometida.

Vamos à estrutura do livro do Deuteronômio, onde percebemos facilmente a divisão do livro, principalmente nos discursos de Moisés. Os capítulos 1 a 4 apresentam um resumo histórico da jornada do povo desde o Monte Sinai, frisando as consequências da incredulidade e desobediência da geração que morreu no deserto, sem alcançar a terra prometida.

Os capítulos 5 a 26 do Deuteronômio registram o segundo e maior dos discursos, que inclui a repetição dos Dez Mandamentos e de diversas outras leis já reveladas nos livros de Êxodo e Levítico. Sendo um livro focado na comunhão do povo com Deus na nova terra, há uma grande ênfase nos princípios da santidade que servem de base para permanecer na presença do Senhor.

Os capítulos 27 a 30 do Deuteronômio relatam o terceiro discurso, no qual Moisés apresentou contraste entre as bênçãos sobre os obedientes e as maldições sobre os desobedientes. As implicações dos ensinamentos deste profeta foram bem resumidas nas palavras desafiadoras: “Vê que proponho, hoje, a vida e o bem, a morte e o mal”.

Os capítulos 31 a 34 do Deuteronômio são os capítulos de transição de uma geração para a próxima. Josué foi nomeado por Deus como sucessor de Moisés, e este deu suas últimas orientações, parte por meio de dois cânticos ou salmos. O livro encerra com o relato da morte de Moisés poucas semanas antes da entrada dos israelitas na terra de Canaã. Moisés encerrou sua carreira olhando para o futuro, a fim de incentivar a fidelidade e a esperança do povo de Israel.

Um dado interessante sobre o livro do Deuteronômio é que o livro da Lei encontrado na reforma do Templo na época do rei Josias (ca. de 622 a.C.) era uma edição anterior de nosso atual Deuteronômio. Alguns estudiosos até falam que o texto encontrado forma os atuais capítulos 12 a 28 do Deuteronômio. Sobre isso nós não temos certeza e sim apenas se levanta a hipótese. Mas é interessante observar que a origem do livro parece remontar a esta reforma religiosa, que também envolveu uma reforma político-moral no antigo Israel, ao longo da história de Judá, no sul de Israel, já que o norte de Israel, a região da Galileia e da Samaria tinha sido dominada pelos Assírios em 722 a.C. Ao que tudo indica o livro do Deuteronômio foi fundamental neste momento da reforma em Israel do sul, na tentativa de se resgatar os valores da Aliança Moisaica.

A teologia do livro do Deuteronômio está marcada pelo cuidado em pautar a vida pela lei, que é uma das características principais do judaísmo, visto que a tentativa é aquela de que a legislação retome a mensagem dos grandes profetas de Israel em obediência ao Código da Aliança que Deus fizera com Israel e que Israel aceitara celebrar com Deus. O propósito da Lei é aquele de estabelecer um nível de comportamento ético e moral compatível com a própria manifestação de Deus e a elevada vocação de Israel em seguir os mandamentos divinos e ser sinal para os demais povos de que Javé é o Deus único e verdadeiro (Dt 6,4).

Enfim, Israel aparece como o povo santo que expressa sua fidelidade ao Deus único no Shemá: “Ouve, ó Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor” (Dt 6,4-9). A fim de tentar concluir o que encontramos no livro do Deuteronômio, poderíamos dizer que ele traz uma síntese de que existe um Deus, um Povo e um Santuário. A partir de então se entende porque este livro que tem uma teologia tão forte que influenciou tanto o judaísmo como o cristianismo.

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